quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mesa de Bar - Felipe Basso


Gaveta olímpica
Retorno a casa de meus pais. Devo estar completando um ano longe. Antes mesmo de entrar, meus olhos começam a perceber as mudanças. Uma das paredes do hall foi adornada com uma pintura de minha mãe. Não reconheço sua assinatura, nem seu traço. Sei que a autoria é sua, pois, ela abre a porta para me receber e faz uma breve referência ao trabalho. Como pude esquecer a assinatura de minha mãe? Ela não percebeu minha falta ou fez de conta que não e seguimos em frente.Meu pai, como de costume, veio me abraçar. Apenas, em verdade, apertamos as mãos. Poucas palavras, perguntas sobre a viagem. Pede minha opinião sobre a sala. Tento identificar o que possa ter mudado. O televisor agora tem mais de 50 polegadas, vieram novos sofás e os antigos ganharam novo estofamento. Há um novo rack. Meu pensamento é debochado e faço esforço para não demonstrar, mas minha vontade era dizer que a sala é a mesma de vinte anos atrás. Ou de uma semana atrás. “Mas que TV, hein, velho!” digo, na ausência do que mais falar.Velho, meu pai não está velho. Assim como sua sala, parece o mesmo de vinte anos atrás. Corado, menos barriga, extremamente disposto. O contrário de minha mãe. Ela está mais velha, sim. Está menor.Sigo em frente, chego ao corredor e paro para ver os quadros de família. Todos estão ali. Meus irmãos, minhas cunhadas, meus pais, meus sobrinhos, primos, amigos. Mas, agora os filhos estão em desvantagem. Cedemos o lugar aos netos. A parede é deles, daqui pra frente. Há fotos deles ainda bebês, depois brincando pela primeira vez na areia da praia. De todos os tipos, de todos os netos.Passo adiante até os quartos. O que sobrou das nossas coisas está guardado nos armários. Resta pouco. Uma camisa esquecida em um cabide, algum livro ou caderno antigo. Tralha, como gosta de falar minha mãe.A última peça é a cozinha. A porta da geladeira está cheia de imãs de telefones de telelentregas e bilhetes de afazeres. Há também desenhos dos netos. Abro a gaveta olímpica (uma gaveta chamada olímpica?) e no meio dos clipes, tesouras, barbantes, colas, uma embalagem de um maço de cigarros, material usado por minha mãe para desestimular meu vício pela nicotina. Eu já parei de fumar, mas a imagem continua ali. Não quero saber o motivo.Fecho a gaveta. Vou embora.Os filhos sempre voltam de mãos vazias.

3 comentários:

Tiago Paixão disse...

O Felipe é realmente um cara diferenciado. Eu não falei nada oficial sobre volta dos colunistas. É quase um teste... quem realmente lembra do Blog, quem quer escrever para o Blog enfim... No dia que eu informei, em um rompante que o Blog estava voltando, o Felipe imadiatamente veio me cobrar porque ele não havia sido comunicado. Eu disse... Pq não há o que ser comunicado... Ele nunca parou, só descansou! Não disse mais nada... o Felipe simplesmente mandou o post e mandou bem.

Márcia Bahlis Moreira disse...

O Felipe é o cara... Muito bom começar o dia com a leitura do texto dele...

Felipe Basso disse...

Como faço pra agradecer vocês? Felipe